22 de maio de 2007

equilibrando barriga e mente

Todos os dias, absolutamente todos os dias, eu leio notícias do Brasil. Todo tipo de notícia e sobre todos os assuntos que você puder imaginar. Esta é uma história muito comum que não apareceu em noticiário, mas aconteceu “muito próximo de mim”:

Brasil, maio de 2007. Dentro de um supermercado em Recife duas moças são abordadas num caixa eletrônico. O ladrão ameaça com uma arma e leva toda a grana que podia levar. Depois “foge” tranqüilo, em sua moto. As duas tinham acabado de receber o salário mensal. Devido às circunstâncias, uma delas perdeu o bebê no dia seguinte. Estava grávida de algumas semanas. A outra, minha prima, perdeu muito menos, mas também perdeu muito.

Rezo para que nenhuma perca as esperanças. Minha prima, assim como milhões de brasileiros, trabalha o dia inteiro feito uma escrava e há poucos anos está enfrentando o desafio (também, e ainda maior) de ter um diploma universitário. Trabalhar dois expedientes e estudar no terceiro. Não ter lazer porque o dinheiro que recebe vai somente para o pagamento das despesas e porque o tempo que “sobra” é para estudar e descansar um pouco. Trabalha honestamente desde os 18 e só agora aos 33 está enfrentando a universidade, por mil e um motivos. Vem um bosta e se acha no direito de tirar dos outros, porque tem “menos” (e ainda foge de moto)! Um assassino. Um coitado. Um monstro. O que será que esse cara está fazendo agora? Quantas vezes será que ele já fez isso? Por quê?

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A cadeia sem fim que não dá cadeia, mas deveria. O encadeamento dos problemas sociais dos ricos e dos pobres, bem como dos que estão no meio do caminho... Com crimes ou sem, são as possíveis combinações de barriga cheia ou vazia e cabeça cheia ou vazia que atormentam o mundo. Por que barrigas e ou cabeças ficam tão vazias? O que é que elas contêm? O que acontece quando enchem ou esvaziam? Falta o equilíbrio.

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Nada justifica isso. Mesmo que o mundo seja cheio de filhos-da-p* de todas as classes sociais e com “poderes” diferentes: o poder de uma arma voltada para você, o poder de decidir por projetos políticos, o poder de manipular os outros, o poder da corrupção, etc e tal. Mesmo que o mundo esteja cheio de barrigas vazias e de reis em barrigas. Mesmo que o mundo esteja cheio de pessoas de cabeça cheia ou de cabeças ocas. Com problemas ou sem, vale à pena ser honesto e trabalhar. Vale à pena manter os valores que se pode ter ao manter o equilíbrio da barriga e da cabeça. Vale à pena sim, porque verdadeira paz é a consciência tranqüila e o verdadeiro poder é o da sua mente.

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Mesmo que na hora de dormir você não se sinta seguro. Mesmo que ao andar no meio da rua, também lhe falte paz no que você percebe do mundo e no que te atinge. Que não falte o respeito. Que não falte o equilíbrio e o discernimento. Que o povo possa se educar e que não faltem valores morais. Que não falte esperança. Que a vida seja menos fútil. Que as pessoas se ajudem mais.

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De longe, revolto-me com muita coisa que não muda na nossa sociedade e na nossa cultura, e fico feliz por outras que progridem ou se mantém em estáveis condições aceitáveis. Não vivo no paraíso porque estou morando na Europa. Pago o meu preço por estar longe da família e levo uma vida simples (buscando o equilíbrio da minha barriga e da minha mente). Na hora que obtenho notícias assim, não sinto um pingo de saudades do Brasil. Não sei se volto a morar no país, sinceramente não sei.

Um comentário:

Luciana Bonino disse...

Ix, realmente essa é uma decisão muito difícl. O Brasil está cada dia mais violento e corrupto, tb não sei se quero voltar a viver por lá, apesar de sentir muita falta da minha família, principalmente agora com a chegada da Anna. Mas é tb por causa dela que não penso em voltar pra um país em que o respeito pela vida não existe mais...